27 junho, 2005

O á-bê-cê da política e o blá, blá, blá da imprensa



Já perceberam que ao se remeter às mulheres políticas a mídia sempre dá ênfase às características físicas, às roupas, à vida particular delas, sobretudo a amorosa? Cria-se uma “aura feminina” que as inabilitam para o exercício da política. Assim como Marconville em meados do séc. XVI, a imprensa tenta nos convencer de que as mulheres não têm aptidões para manejar e conduzir “coisas grandes e difíceis como costumes, religião, república e família, pois parecem ter sido feitas mais para a volúpia e o ócio que para tratar negócios de importância”. Assim aconteceu com Martha Suplicy, com Patrícia Saboya e com outras tantas. Agora, a mulher da vez é Dilma Rousseff.

Em uma das muitas leituras sobre a sua posse na Casa Civil, deparei-me com uma matéria que dizia: “Usava um terninho marrom claro, blusa branca, colar e brinco de pérolas combinando. O cabelo muito bem arrumado mostrava que a ministra tinha acordado cedo para se produzir. Na cerimônia de posse ainda estava impecável, mesmo com sua equipe garantindo que ela não deu nenhuma escapulida para ajeitar o cabelo durante o dia”. Ora, de que interessa aos leitores ávidos por informação as roupas, mais que normais, que a ministra usava? E no final, completou: “estava visivelmente nervosa durante seu discurso”. Sobre o seu histórico político, profissional e de militância nem uma linha sequer.


Na cultura política brasileira, há uma divisão entre masculino político e feminino social. Os adjetivos e as análises da imprensa sobre a escolha de Dilma Rosseff para a chefia da Casa Civil são os mesmos. Chega a ser enfadonha, cansativa, a falta de criatividade e a recorrente utilização de estereótipos para definir a futura atuação da primeira mulher a chegar a tão alto cargo no poder Executivo deste País. “Um perfil mais gerencial e menos político”. Não se fala outra coisa.

Mas o alcance do preconceito é bem maior. Escorregadas até na própria Esplanada dos Ministérios. Lá, como no resto do país, a política ainda é vista como santuário masculino, um espaço de virilidade que repele a dita “feminilidade”. O ministro da Cultura, Gilberto Gil, cantou aos quatro ventos, ou melhor, aos quatro poderes, que Dilma Rousseff, ex-ministra de Minas e Energia, "tem uma personalidade forte, um lado macho na forma de imprimir gestão". Segundo ele, "a expectativa geral da política e da sociedade brasileira é que governantes têm de ser muito machos".

Essa “virilidade”, a que se refere Gilberto Gil, não é senão a eficácia da ministra em enfrentar um desafio colossal, até mesmo épico:reformular o setor eletro-energético brasileiro e assegurar o planejamento da sua expansão com o incentivo de novos investimentos para evitar crises como o “apagão” enfrentado pelo país entre 2001 e 2002, além de instituir tarifas mais justas. Ações que não são sinônimos de masculinidade e sim de muita competência.

13 Comentários:

Às 10:52 AM , Anonymous Anônimo disse...

Caríssimas Polyana

Gostei muito do enfoque e acho importante esse tipo de observação. Tb percebi os comentários da imprensa e confesso que achei um absurdo, principalmente do nosso Ministro ( mesmo que eu tente entender q ele não fez por mau, porém não se expressou corretamente). seria interessante se tivéssemos como "alfinetar" esse fato.

Achei bem legal e produtivos todos os artigos.

Parabéns

Marcia Cristina

 
Às 2:26 PM , Anonymous Anônimo disse...

Bem, realmente não consigo ter uma visão tão pessimista com relação ao preconceito sitado por vc nesta matéria. Afinal os artigos que tive a oportunidade de lê-los não fizeram alusão ao "modelito" usado pela referida senhora, mas as suas carecterísticas político-profissionais. Assim sendo, sugiro 02 coisas a todos (as):
1 - Ignorem estes artigos ditos "preconceituosos" cujo cunho informativo está aquem do que desejamos. Além disso, posso afirmar que é isto que estes pseudos-jornalista desejam: publicidade!!!!
2 - Como consequência do primeiro: Procurem outras fontes de informação. Tenham a certeza de que existem várias outras de melhor qualidade.

Polyana, não posso deixar de fazer outro comentário: quanto a questão da competência da Sra. Dilma desejo deixar minhas ressalvas, pois não vejo nela este profissional de todo este gabarito, pelo menos no que tange a gestão do então ministério das minas e energia cujo trabalho teve apenas um ponto em questão na mídia: Quebra de contrato por parte do governo. Caracterísitca esta bem difundida neste país e que mexe profundamente com o que há de mais importante num governo e país: CREDIBILIDADE!!! Até quando iremos ver governos quebrando contratos a revelia???
Para concluir devo dizer que o Sr. Presidente da república trocou o "czar" pela "czarina" ao nomeá-la para Casa Civil, tornando a repetir o erro que trouxe à tona todo estes escândalos que hoje inundam as páginas dos jornais e noticiários das tvs: a prepotência e a arrogância de um partido que insiste em governar fechado em si mesmo achando-se acima do bem e do mal e dotado de uma competência dante nunca vista. Hora! que coisa mais pernóstica!!!

"O perigo não está em um determinda classe seja incapaz de governar. O fato é que nenhuma classe é capaz de governar sozinha."
John Edward Dalberg - historiador inglês (1834 - 1902).

Grato pelo espaço.

Fernando Lauande

 
Às 4:58 PM , Anonymous Anônimo disse...

Poly,

Excelente sua reflexão. É um absurdo que mulheres, por mais que sejam competentes e possuam uma carreira brilhante, são avaliadas segundo a roupa que vestem ou quanto tempo gastam arrumando o cabelo para falar em público. Por que falar de coisas banais ao se referir às mulheres? Por que ninguém comenta qual a marca do terno ou do sapato dos nossos parlamentares ou ministros – isso daria mais linhas nos jornais, já que são as grandes maiorias em nosso país...
A primeira notícia que ouvi sobre a substituição de Dirceu pela Dilma foi a seguinte: “Agora, o homem forte do Presidente é uma mulher” – tal afirmação parte do pressuposto que a chefia da Casa Civil, cargo de estreita ligação com o Presidente e com alta responsabilidade na condução política do país é “naturalmente” ocupada por homens... apenas uma excepcionalidade poderia deixar uma mulher chegar a alto posto como este... imaginem... uma mulher no cargo do “homem forte”! um absurdo! Melhor mesmo ocultar o espaço inaugurado por um espécime humano fêmea e sua competência, desviando o assunto... não se assuntem se as próximas notícias de Dilma forem: “A cor de batom da Ministra” ou “A marca da lingerie do ‘homem forte’ do Presidente” ou ainda “Ministra Dilma prefere Casa Civil na cor rosa”.

Saudações Feministas
Pri

 
Às 5:03 PM , Anonymous Fernanda Grigolin disse...

Polyana,
Concordo contigo! Vi uma entrevista da Dilma na Globo News na qual ela respondia a todos esses ataques machistas da mídia. Teve que falar se era ou não "mulher-macho", se tinha pulso firme e era "delicada"... E como você mesma disse, pouco se falou do histórico profissional de Dilma no Rio Grande do Sul e também no outro Ministério...
Fê Grigolin

 
Às 5:03 PM , Anonymous Fernanda Grigo disse...

Polyana,
Concordo contigo! Vi uma entrevista da Dilma na Globo News na qual ela respondia a todos esses ataques machistas da mídia. Teve que falar se era ou não "mulher-macho", se tinha pulso firme e era "delicada"... E como você mesma disse, pouco se falou do histórico profissional de Dilma no Rio Grande do Sul e também no outro Ministério...
Fê Grigolin

 
Às 10:58 PM , Anonymous Mariana Lima disse...

Este não é um comentário sobre o blog da Polyana (que aliás está aprovadíssimo pelo meu ISO feminista 2005!!!), mas em relação a outro comentário, ou seja, ao de Fernando Lauande: que pena! Criticar as mídias referidas não significa, isso de forma alguma, deixar de lado as demais mídias ou fontes que por ventura não cometam as mesmas obstusidades (se é que a palavra existe). Acho que Polyana nos mostra como essas questões AINDA estão presentes e como isso é LAMENTÁVEL!
Na minha "humble" opinião, é lamentável que homens como vc sequer compreendam a profundidade da crítica feita. É ainda típico da categoria(não como um todo, mas parte dela), lo siento!
E mais, o pior é pensar que a política está esgotada pelas regulamentações do mercado: que pena, novamente! Até parece que o que há de mais importante na política do Brasil hoje é credibilidade!!! Meu caro, não sejamos simplistas, o Brasil é, delonge, o país mais corrupto do mundo, não é essa ação POLÍTICA que iria mudar esse descrédito.
Será que a quebra desse contrato, ou de qualquer outro neste governo é, deliberadamente, à revelia? Reflitamos um pouco mais, "shall we"?
Concluindo: seria o "erro" do caríssimo Sr. Presidente da República, como vc Fernando o chama, mais grave que "citação" com "s"? Reflitamos...
Sobre o espaço: "be my guest!"
Mariana Lima.

 
Às 2:39 PM , Anonymous Anônimo disse...

Muito legal! Precisamos sempre dessas lúcidas leituras !
Um abraço
Miriam Corrêa

 
Às 7:29 PM , Blogger Polyana Resende disse...

Gente,
Olha que bacana: este artigo já foi publicado por três sites; do movimento de mulheres e de um partido político! Além disso, vcs estão comentando, debatendo e criticando os meus textos. Obrigada pelo carinho. Sou a blogueira estreante mais feliz que há!

 
Às 8:27 PM , Anonymous Anônimo disse...

Muito próprias as suas colocações...
A banalização da mulher aflige a sociedade como um todo e deve ser combatida.
Criticar é preciso, mas com argumentos fundamentados. Sem preconceitos de nenhuma natureza...
Desacreditar uma pessoa pelo fato de ser mulher é insano!!!
Desculpa Poly, mas...
Imprensa, bah!!!
Felipe
Quer coisa mais machista!!!!!!
Beijo gostoso...

 
Às 8:29 PM , Blogger felipe disse...

desculpe a confusão do nome antes do final dos comentários...

 
Às 12:08 PM , Blogger mi introspectiva disse...

Poly, o artigo está MUITO bem escrito. Vc sabe que sou sua fã, desde que vc ainda fazia faculdade e é muito legal ver que essa menina virou uma jornalista de verdade.
Quanto aos comentários sobre a escolha de Dilma Rousseff para a Casa Civil, eu já havia observado a mesma coisa que vc, assistindo ao "Saia Justa", no GNT. Houve um espaço para as 4 integrantes do programa darem suas opiniões sobre a Sra. Dilma e, com exceção da Mônica Waldvogel (não sei se é assim que escreve), todas comentaram apenas do seu estilo de vestir-se. Aliás, vamos abrir um parênteses: o que a Luana Piovani está fazendo naquele programa? A mulher é uma porta!!!
Olha, tenho que discordar com o Fernando, qdo ele diz que a sua visão é pessimista. Acho que a sua visão é de uma pessoa que está à frente do seu tempo e é graças a pessoas como vc que conquistas são feitas neste mundo. Mais uma vez, parabéns pelo blog!!!
Mi
PS: As fotos estão show!

 
Às 12:10 PM , Blogger mi introspectiva disse...

Ah! Esqueci de assinar meu nome de verdade, hehe... É Micheline Carvalho

 
Às 6:01 PM , Anonymous Letícia Massula disse...

Poly,

S E N S A C I O N A L!!!!

Adorei o artigo!!! Somo a tudo que vc disse a seguinte nota: vc percebeu a linguagem "desinclusiva" da imprensa na cobertura da posse?

Globo, SBT, Bandeirante assim se referiam aos fatos: "novO titular da Casa Civil" "a Casa Civil tem UM novO MinistrO" é a total negação da linguagem posta ao fato de uma mulher ocupar tão alto cargo!!!

beijos,

Let

 

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial